segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sábado de trevas

Ninguém vai esquecer aquela noite. Realmente, seria difícil. A expectativa girou em torno do evento em homenagem ao centenário de morte de Maria Boa. Quem escutou o poeta Emanuel Grilo apresentando a banda Mêmê e seus sonhos pornográficos também viu, quarenta minutos depois, as lágrimas do próprio poeta, por ter tido a oportunidade de recitar seus magníficos sonetos impedida pelo rigoroso mal humor da nossa ilustre vizinha . Mêmê, mais conhecido por Negão, revelou nos bastidores que jamais cantaria novamente, pois tudo estava indo tão bem, desde a aceitação do público do repertório quanto à expectativa gerada em torno do striptease que ocorreria minutos depois do momento em que a polícia chegou. Eu, por ter poucas qualidades, ao menos aprendi a ser diplomático com a polícia: resolvi sem tirar um puto do bolso, pois os convidei para ver o striptease lá dentro. Os caras ficaram entusiasmados e prometeram aparecer em vinte minutos.
- É gostosa?
- São gostosas, respondi serem duas mulheres. Mas lembre-se: trata-se de um strip teatral e não sexual, o que nos difere dos puteiros clandestinos da cidade.
Os caras riram pra caralho.
Logo depois as trevas foram materializadas: a ilustre senhora, que sofre transtorno bipolar, começou a jogar água nas pessoas lá fora, a falar com os clientes enlouquecidamente, a jorrar querosene no chão e a difamar a imagem do bar começando pelos seus donos. Bom, não sou um homem de méritos, contudo seria exagero arriscar opiniões sobre um rapaz tão bom moço como eu. Tudo bem, realizei um evento cuja temática era pornografia, mas isso não quer dizer nada.
Então a casa caiu. Interrompemos o show de Mêmê, que estava sendo impressionante e, infelizmente, fizemos com que o poeta Emanuel Grilo se decidisse por um Não aos eventos culturais da cidade. E o strip nem rolou...
Entre matar a vizinha e tentar contornar os efeitos do que um evento pode causar na cabeça pirada dos outros, prefiro escrever um pedido de desculpas aos clientes, ao poeta, ao grupo Mêmê e seus sonhos pornográficos, à polícia, e às atrizes.
No outro dia, ao acordar razoavelmente mal humorado, vou à conveniência comprar cigarros e, ao entrar, encontro a tal vizinha que diz o "bom-dia" mais filho da puta que ouvi em toda minha vida.
Um dia vou me vingar.

2 comentários:

  1. Puta que pariu: lindo! E ousado pra caralho. Tomara que a polícia (nem a vizinha!) leia esse blog.

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  2. "fizemos com que o poeta Emanuel Grilo se decidisse por um Não aos eventos culturais da cidade" - Rapaz, não entendi muito bem esse techo do texto, mas de qualquer maneira, Eduardo, sei que é até falta de respeito dizer isso aqui no teu blog, mas vai tomar no cu! Pois, como diz nosso amigo Werther Alípio, em Natal ser chamado de poeta é ofensa!
    Grande abraço.

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